Quando o outro vira fuga, a relação deixa de ser encontro e passa a ser preenchimento.

Há pessoas cercadas de gente que ainda assim se sentem sós. Falam todos os dias com alguém, têm companhia, trocam mensagens, mas nada parece realmente chegar. São relações que existem, mas não preenchem.

Essas relações vazias não surgem por acaso. Muitas vezes, são tentativas de fugir do próprio silêncio. É mais fácil se ocupar com alguém do que encarar o próprio vazio. Então o outro vira distração, companhia temporária, anestesia. A presença serve para calar a falta, não para compartilhá-la.

Na psicanálise, entendemos que o vazio faz parte da vida. Ele não é um defeito, é condição do desejo. Quando não suportamos o vazio, buscamos qualquer coisa que o tape, e é aí que os vínculos perdem sentido. O encontro vira consumo, e o outro, um objeto que precisa nos fazer sentir algo.

Só que o que sustenta uma relação não é o preenchimento, é a troca. É poder estar junto sem precisar se esconder, sem medo de não bastar. É suportar o silêncio, o conflito, a pausa. Relação viva é aquela em que ambos podem existir inteiros, e não apenas agradar.

Talvez o desafio não seja encontrar alguém, mas aprender a não fugir de si. Porque quando a gente suporta o próprio vazio, deixa de procurar o outro como remendo e começa a encontrá-lo de verdade.

Gabriel de Freitas Nery – Psicólogo e Psicanalista CRP 04/72024

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *