
Quem nunca disse um “sim” atravessado? Aquele que dói na boca porque, lá no fundo, a vontade era dizer “não”. Isso acontece em diferentes cenários: aceitar um convite quando só queríamos ficar em casa, assumir uma tarefa extra no trabalho mesmo exaustos, ou topar um favor para um amigo enquanto o corpo pedia descanso. O resultado costuma ser o mesmo: um peso interno, como se tivéssemos nos traído para não decepcionar o outro.
O medo que ronda a recusa é antigo. Desde cedo aprendemos que agradar abre portas e garante afeto. A criança descobre que recebe carinho quando corresponde às expectativas; o adolescente se molda ao grupo para ser aceito; o adulto acredita que seu valor depende de reconhecimento externo. Esse fio invisível atravessa nossa história e nos faz acreditar que dizer “não” ameaça vínculos, empregos, oportunidades e até a própria pertença.
Mas, do ponto de vista da psicanálise, o “não” vai além da recusa em si. Ele representa o encontro com o desejo do outro e, ao mesmo tempo, com o nosso próprio desejo. Dizer “não” é arriscar frustrar alguém e lidar com a angústia de não corresponder. É enfrentar a solidão de sustentar um limite. Por isso, tantas vezes ceder parece mais simples — embora custe caro por dentro.
E esse preço é alto. O “sim” constante pode virar um “não” silencioso para si mesmo. É nesse ponto que surgem o esgotamento emocional, a sensação de invisibilidade e até sintomas físicos ligados ao estresse, como dores, insônia ou crises de ansiedade. É como se cada concessão fosse uma pequena retirada da nossa própria energia vital.
Aprender a dizer “não”, ao contrário do que muitos pensam, não é egoísmo. É um ato de afirmação. É reconhecer limites, valorizar necessidades e entender que respeito só existe quando também há espaço para a diferença. Relações verdadeiras não se sustentam apenas em concordâncias, mas na honestidade de poder divergir sem medo de perder o afeto.
Talvez a pergunta que precisamos nos fazer diante de um pedido difícil seja: estou dizendo “sim” porque realmente quero, ou porque tenho medo de desapontar? Essa pequena pausa pode mudar o rumo de uma decisão. Pode abrir espaço para relações mais autênticas, em que a aceitação do outro não dependa da nossa constante renúncia.
No fim das contas, dizer “não” pode ser uma das formas mais profundas de dizer “sim” a si mesmo. E talvez seja justamente esse “sim” o ponto de partida para uma vida mais leve, saudável e verdadeira.
Gabriel de Freitas Nery
Psicólogo e Psicanalista
CRP 04/72024